Em Gênesis 3, a serpente afirma à mulher que, se ela comer do fruto proibido, “vocês não morrerão; seus olhos se abrirão, e vocês serão como Elohim, conhecendo o bem e o mal”. Quando os olhos de ambos se abrem imediatamente após o ato, a narrativa parece confirmar a fala da serpente — e não a ameaça anterior de YHWH em 2:17: “certamente morrerás”.
O embate textual é direto. A serpente mentiu, ou falou a verdade parcial? E YHWH exagerou, ou se referia à morte espiritual? A questão ganha camadas profundas quando confrontamos essa passagem com uma declaração feita séculos depois em 1 Timóteo 2:14: “E Adão não foi enganado; mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão.”
Essa afirmação — isolada no cânon — não apenas reinterpreta Gênesis, como contradiz frontalmente a equidade narrativa original entre Adão e Havá. A pergunta que emerge é: quem mentiu, afinal?
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Gênesis 3: O texto hebraico não culpa só Havá
No texto massorético de Gênesis 3:6, Havá vê que o fruto é “desejável” e come — mas o hebraico é claro: "e ela deu também ao seu homem que estava com ela, e ele comeu" (וַתִּתֵּן גַּם־לְאִישָׁהּ עִמָּהּ וַיֹּאכַל).
A expressão "עִמָּהּ" (immah) significa “com ela” — indicando que Adão estava ao lado o tempo todo. Não há menção de que tenha sido enganado, mas tampouco há defesa. O texto é neutro: ambos participam do ato, e ambos têm seus olhos abertos, como previsto pela serpente.
Não há qualquer menção de que apenas a mulher foi enganada. O foco está no resultado: desobediência e consciência adquirida.
A frase polêmica de 1 Timóteo: texto isolado e sem paralelo
Em 1 Timóteo 2:14, temos:
Καὶ Ἀδὰμ οὐκ ἠπατήθη, ἡ δὲ γυνὴ ἐξαπατηθεῖσα ἐν παραβάσει γέγονεν.
“E Adão não foi enganado; mas a mulher, tendo sido completamente enganada, caiu em transgressão.”
A forma verbal ἐξαπατηθεῖσα é o particípio aoristo passivo feminino de ἐξαπατάω — “enganar completamente, seduzir com dolo”. A construção é enfática: Havá foi totalmente enganada, enquanto Adão não foi enganado em nada.
Essa afirmação não encontra eco em nenhum outro texto do Tanakh nem do Segundo Templo. Trata-se de uma extrapolação teológica tardia que contradiz o espírito narrativo de Gênesis.
O vocabulário de “engano” em Gênesis e Timóteo não se conecta
A palavra hebraica usada para o engano em Gênesis 3:13 — "הִשִּׁיאַנִי" (hishiani) — vem da raiz נָשָׁא (nasha'), “enganar, seduzir, induzir ao erro”. Já o grego de 1 Timóteo usa ἐξαπατάω, forma intensificada de ἀπατάω.
Esses dois termos não são semanticamente intercambiáveis no uso veterotestamentário: nasha' carrega conotação de persuasão astuta, enquanto exapataō implica dolo intencional, manipulação absoluta.
Ou seja, o autor de 1 Timóteo radicaliza o engano da mulher e absolve completamente o homem — algo que o texto hebraico de Gênesis nunca faz.
A carta a Timóteo foi realmente escrita por Paulo?
Dos treze escritos atribuídos a Paulo, 1 Timóteo pertence às chamadas Cartas Pastorais (1 e 2 Timóteo, Tito) — cuja autoria paulina é amplamente contestada por filólogos desde o século XIX.
Estudos estilísticos, vocabulário raro (com mais de 30 hapax legomena), e teologia eclesiástica hierarquizada sugerem um autor posterior, já influenciado por estruturas patriarcais rígidas.
Além disso, o tratamento dado à mulher (proibição de ensinar, submissão por causa do engano original) representa uma regressão em relação à postura mais igualitária observada em outras cartas paulinas autênticas, como Romanos 16 ou Gálatas 3:28.
O pano de fundo patriarcal do século II
Filólogos como Bart Ehrman e Raymond Brown apontam que as Cartas Pastorais refletem um contexto pós-apostólico, onde comunidades começam a institucionalizar a autoridade masculina e marginalizar lideranças femininas.
Assim, a reinterpretação do Éden em 1 Timóteo 2:14 não visa fidelidade textual ao Gênesis, mas uma construção teológica com função eclesiástica e social. É uma exegese ideológica, não filológica.
Qual o impacto dessa contradição na leitura do Éden?
Se 1 Timóteo é um comentário ideológico e tardio, sua autoridade para reinterpretar Gênesis deve ser contestada. A narrativa original hebraica não distingue culpas entre homem e mulher; ambos pecam, ambos sofrem as consequências, ambos são expulsos.
A frase “Adão não foi enganado” se torna, assim, um exemplo raro de contradição entre textos que se pretendem harmônicos. E lança luz sobre o processo histórico de distorção do papel da mulher na tradição cristã — a partir de um texto que, ao contrário, aponta para corresponsabilidade, não culpabilização unilateral.
Bloco Técnico
Texto original (Gênesis 3:13)
וַתֹּאמֶר הָאִשָּׁה הַנָּחָשׁ הִשִּׁיאַנִי וָאֹכֵל
Va-tómer ha-ishá: hanachásh hishîani, va-okhél.
"E disse a mulher: a serpente me enganou, e comi."
Análise morfológica (hebraico)
־ הִשִּׁיאַנִי (hishîani) = qal perfect 3ms + 1cs suffix | "ele me enganou"
־ נָשָׁא (nasha') = raiz: “enganar, induzir ao erro”
Texto original (1 Timóteo 2:14)
Καὶ Ἀδὰμ οὐκ ἠπατήθη, ἡ δὲ γυνὴ ἐξαπατηθεῖσα ἐν παραβάσει γέγονεν
Kai Adam ouk ēpatēthē, hē de gynē exapatētheisa en parabásei gegonen
"E Adão não foi enganado, mas a mulher, tendo sido completamente enganada, entrou em transgressão."
Análise morfológica (grego)
־ ἐξαπατηθεῖσα = aoristo passivo, part. feminino sing. de ἐξαπατάω
־ παραβάσει = dativo singular de παράβασις (transgressão)
Grau de confiabilidade textual
Gênesis (BHS): A
1 Timóteo (NA28): B (com variações menores, mas conteúdo consolidado)
Fontes filológicas
־ HALOT, p. 716: נָשָׁא
־ BDAG, p. 352: ἐξαπατάω
־ BHS (Gen 3:13)
־ NA28 (1Tim 2:14)
־ Nestle-Aland 28 apparatus
־ Ehrman, Forgery and Counterforgery
־ Brown, Introduction to the New Testament

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